Esclarecimentos: O texto que segue é um conto que escrevi ainda esse ano. Vou aproveitar esse novo espaço para posta-lo, afinal, não custa nada além da coragem. Boa leitura!
No dia em que as pessoas mais acharam graça da vida, uma peça foi pregada pelo Destino. Maroto que só ele, este sabido escolheu um ser humano qualquer e o transportou para a Selva de Pedras, localizada do outro lado do Atlântico. Era selva feita de areia pedregosa no chão, de ar rude e de oxigênio pesado. As águas nesse lugar não davam sinal de malemolência e as cores das nuvens paralisadas, eram de um cinza desconfortável, nada parecido com os algodões doce que desenhavam a imaginação dos homens na grande tela de fundo azul chamada céu.
Na selva de pedras nem o coração funcionava direito. Parecia que ia congelar de vez, a sangue frio, sem dar tempo do Homem Comum sentir outra coisa senão frustração. O músculo pulsante estava cada vez mais conectado aos ossos trêmulos e aos caprichos mesquinhos de uma garganta seca, que só iria falar na presença de um gole d'água, para não se comprometer ainda mais descrevendo o que se sucedera por aqueles dias. As pernas estavam frouxas e a cabeça perdida não acreditava no que os olhos viam.
Para reparar os danos que a Selva de Pedra havia causado ao seu coração, o Homem Comum achou melhor furar os seus olhos com cacos de vidro catados numa paisagem morta qualquer. Assim, ele conseguiu evitar maiores constrangimentos para o resto do seu corpo e quem sabe até poderia convencer algum outro sujeito de que a Selva de Pedra tinha lhe feito todo esse mal. Como o Homem Comum tinha um tato ruim, e a pele espinhenta, passou a imaginar que tocava novamente as coisas do seu velho mundo do outro lado do Atlântico.
O chão pedregoso lembrava o asfalto velho que guiava sua cidadezinha às grandes metrópoles. O ar carregado remetia seus pensamentos para sua família, pois de forma parecida, sufocava os seus pulmões como tortura, e ao mesmo tempo, era vital para sua sobrevivência. As nuvens cinza foram apagadas de sua mente porque eram semelhantes demais a sua personalidade vil e obscura.
Após se situar na sua nova morada, o Homem Comum, entrou em estado de curiosidade e por conta disso, ainda não tinha se dado conta de que estava com fome. Mas esse imprevisto ele resolveu com um pedaço de graveto, que com seu péssimo paladar captou ser um biscoito. Assim, conseguiu saciar seu desejo de pôr alguma coisa na boca.
Cego, mudo e fatigado diante de uma selva assustadora, fria e calculista como seus melhores planos de vida, o Homem Comum seguiu analisando uma maneira de escapar de tamanha enrascada, e alguns passos depois, teve a brilhante idéia de procurar o Destino, seu algoz, para entender porque fora jogado num lugar tão vazio e indiferente. Pensou que se fosse mais suave, talvez, o Homem Comum conseguisse se tornar rei da Selva de Pedra, mas enfrentar algo tão insensível e dissimulado como ele próprio, era um desafio por demais desgastante, além do mais, fazia algumas décadas que o Homem Comum estava acometido pela preguiça.
Mesmo com todos os sentidos agora confusos e até percebendo alguma sensação engraçada que ainda não poderia ser chamada de sentimento, o homem subiu um monte que julgou ser uma escada rolante no sentido inverso, já que quanto mais o sujeito subia em sua velocidade insuficiente, mais descia escalada abaixo e se estatelava no chão raivoso, que o arranhara tantas vezes que sua pele espinhenta perdeu os espinhos, um por um. Agora era um ser destituído de sua arma mais fatal: O abraço, que ele costumava usar nos meios sociais, machucando os trouxas que acreditavam que por baixo daquela pele havia afeto e não espinhos. Agora teria de pensar em outra forma de apunhalar pelas costas. Mas isso seria assunto para ser visto depois que ele saísse dali e recuperasse o seu mundo.
O Destino, mestre em mudar a vida do ser humano, não é como o Homem Comum pensa. É muito mais difícil de lidar do que o próprio Tempo e autoritário demais para querer dar satisfação de sua vida a estranhos, mesmo que a vida em questão seja a do Homem Comum.
Todos sabem que o Destino não costuma mudar de idéia e que tem como sua brincadeira favorita a roleta russa. Mas, usa sempre a munição completa em suas pistolas, para não ter perigo dele perder para ninguém. Afirmo isso porque soube que ele nunca começa jogando.
O Destino não costuma fazer outra coisa senão brincar com suas próprias regras. Não foi criado parar ser justo porque fora muito mimado sempre. Sabia que o Homem Comum pensava em lhe procurar para ter uma conversa séria, e estava até gostando da idéia se esta fosse se concretizar. Mas o Destino já estava certo do que iria acontecer: O Homem Comum desistiria de fugir da Selva de Pedra por amor a ela. Por descobrir que estava cansado demais de pregar peças nos outros da sua espécie e por já estar gostando desse jogo de sedução com um lugar mais áspero e insensível que ele próprio.
A Selva de Pedra o seduzira, e por essa paixão avassaladora nem o próprio Destino esperava. Já sabia muito bem no que isso ia terminar, não porque ele previa o futuro, mas por seu vasto conhecimento sobre o coração humano.
O Destino me confidenciou o futuro do Homem Comum enquanto bebíamos vinho:
- Essa história vai acabar com o Homem Comum, cego, desarmado, insano e mais cedo ou mais tarde, morto. A Selva de Pedra o fará rastejar por suas terras sem o menos sentimento de culpa, e quando o Homem Comum se tornar um obsessivo previsível, a Selva de Pedra fará rolar de cima de um monte qualquer uma rocha, que despedaçará o resto do coração do Homem Comum. A essa altura de delírio, esse pobre sujeito agradecerá a Selva de Pedra, por ter dado a ele a honra de morrer em seus braços.
Fim.
20 de julho de 2010

Nenhum comentário:
Postar um comentário