Calma, não se assustem com o título (pelo menos ainda não). Chegaremos à sociedade das minhocas, mas primeiramente vamos começar do “normal”, ou seja, da nossa sociedade (se é que podemos chamá-la de normal). Como todos sabem, o macho de nossa espécie tem mais força física que a fêmea, e provavelmente, por isso, dominou o mundo num início de civilização. Logicamente a legitimação de tal sistema foi mudando conforme o tempo, apesar de sua forma de manutenção ser sempre o medo, em suas mais variadas formas. Partindo dessa premissa, de dominação do mais forte, e aplicando-a a outras espécies, imaginando que estas chegariam ao patamar de racionais e culturais como o homem, iniciaremos a nossa experiência mental, estilo Einstein, ou as Viagens de Gulliver ou, quem sabe, estilo “eu mesmo”.
E se os louva-a-deus fossem seres racionais e pudessem se desenvolver culturalmente? Bem, essa espécie, assim como alguns aracnídeos, tem uma forma peculiar de fazer sexo. Como se sabe, as fêmeas, nesse caso, logo após a cópula, e sem esperar o tradicional “foi bom pra você?”, assassinam os seus machos. Nesse caso, muito provavelmente, teríamos uma completa dominação das fêmeas no início dessa civilização. As louva-a-deusas comandariam os seus machos, tratando-os como simples reprodutores, e por assim serem, teriam que estar sempre à disponibilidade das fêmeas. Os machos, dominados pelo medo, aceitariam sua condição de inferioridade. As fêmeas seriam as únicas permitidas a ter conhecimento, pois acreditariam piamente que são superiores mesmo, e inventariam as mais variadas formas de legitimar tal pensamento. Um dia talvez, indignadas por haver desigualdade entre suas semelhantes, criassem o humanismo (nesse caso, louva-a-deusismo), mas como forma de proteção a si mesma, do gênero feminino, e ainda assim pensando no macho como subalterno, ou o outro mais fraco a quem não foi dada a benção da superioridade. Talvez, a partir daí, parassem de assassinar seus machos após o coito, mas ainda assim com total controle do sistema. Algum dia, depois de terem o mínimo direito ao conhecimento, os louva-a-deus, tendo a noção desse humanismo criado pelas fêmeas (nesse caso, repito, louva-a-deusismo) se tocariam de que não são inferiores, e de que poderiam ter os mesmos direitos das fêmeas. Iriam reivindicar salários iguais, direito ao voto e de serem votados, oportunidades nas mais diversas áreas do conhecimento, etc. Daí ponha muita luta, muita morte e muito suor, além de centenas ou quem sabe milhares de anos até que o machismo conseguisse superar o sistema feminista opressor, e enfim se conseguisse vislumbrar igualdade entre os sexos. Ah sim, é bom lembrar que, neste caso, o feminismo seria o machismo de hoje, pregando a desigualdade natural entre os sexos, enquanto que o machismo seria equivalente ao feminismo, pregando igualdade plena.
Mas e se, ao invés de louva-a-deus, as minhocas fossem seres racionais e pudessem se desenvolver culturalmente? Aí sim seria interessante. Sabemos que as minhocas são hermafroditas, ou seja, toda a minhoca é macho e fêmea, podendo escolher, durante sua vida, hora ser macho e hora ser fêmea. Não haveria dominação de gênero algum, pois isso não existe. No início não haveria violência entre minhocas por seu sexo, já que elas não possuem. Ninguém pensaria em ser superior por ter nascido com sexo Y ou X e, nesse caso, não haveria esta forma de opressão. O conhecimento se estenderia a todos e, dessa maneira, a criação do humanismo (nesse caso, minhoquismo) muito provavelmente se daria de forma muita mais rápida que no nosso sistema (se duas cabeças pensam mais que uma, 6 bilhões pensam mais que 3 bilhões). Como não haveria separação de gênero, assim que fosse criado, o minhoquismo, muito provavelmente, se estenderia não só a gênero X ou Y, mas a todas as minhocas. Dessa forma, ao contrário da raça humana e dos louva-a-deus, muito provavelmente teríamos um sistema racional e igualitário em questão de pouco tempo, sem piadinhas, sem coisificação e sem as demais figuras do machismo. Nesse mundo não haveria assuntos de homens e assuntos de mulheres, e dessa forma playboy e capricho seriam uma revista só.
Agora pronto, terminada a viagem, está na hora de descarregar as malas e de pensar sobre o que viu. Se alguém discorda de algum ponto de minha imaginação, crie a sua e me chame pra subir a bordo também. Não tive aqui a intenção de legitimar o sistema, nem de dizer que “tem que ser assim”. Só tentei compreender porque estamos aqui, dessa forma, e para ilustrar o esquema, apliquei-o a outras possíveis sociedades. Depois de imaginar outros mundos, não creio que estamos assim tão longe de alcançarmos o patamar de minhocas, afinal, um certo Freud aí já disse, no início do século passado, que o mundo era “bi”. Vai que, daqui a alguns poucos anos, essa afirmação não vira verdade?
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