Resolvi iniciar uma nova conversa na varanda, porque se nos pots anteriores lavamos um bocado de roupa suja, já está mais do que na hora de colocar todas essas peças encardidas para secar. Entretanto, mesmo com muito vento fresco, ainda considero a atmosfera pesada. Talvez o tema Tradição possa ser responsável pelo meu desconforto, posto que os discursos tradicionais podem ser tão violentos quanto as idéias misóginas. Se a Tradição fosse gente, seria aquele tipo de pessoa cabeça dura, que se serve do seu autoritarismo para impor seus valores. Na verdade, transmitir as práticas e valores das gerações mais remotas para as mais atuais, acorrentando cristãos e pagãos a uma inexorável obrigação moral com o lugar e a condição em que nasceram é o grande lema da Tradição.
Esta antiquada senhora, para os padrões da modernidade, aplica seus métodos de conservação cultural e se nega a compreender outras crenças, outros humanos que não aqueles que a respeitam. Inclusive, a Tradição desertou todos os filhos que não seguiram suas ordens e deixou para eles apenas o estigma da rejeição. Para completar, ainda botou para fora de sua casa qualquer conversa imprópria para suas diretrizes reacionárias.
O poder para a tradição ocidental é exercido através de controle, como uma relação de mando e obediência. Por isso, há a utilização de métodos violentos e repressivos, a fim de assegurar a obediência das pessoas que se opõem, suprimindo também os conflitos de interesses dos grupos sociais dominados*.
O Homem elefante
Coincidentemente, dias atrás, assisti um filme que desenha com traços pontuais como a antiga sociedade se porta diante da diversidade, aberração social mais perigosa para a anacrônica vontade tradicional. O desvio do comportamento padrão chega a causar calafrios no corpo estamental da tradição e, para a conservação de sua saúde mental, ela dá a quem ousa nascer diferente dos seus planos o castigo da intolerância.
O filme escolhido para introduzir o tema em questão é "O Homem elefante" de David Lynch. A película rodada em 1980 conta a história de John Merrick, um desafortunado cidadão da Inglaterra vitoriana, portador de uma doença grave que acarretou a deformação quase completa de seu corpo. Devido seu aspecto anômalo, John Merrick era exibido nos circos de variedade como um monstro, recebendo dos seus algozes tratamento igualmente desumano. Se alimentava apenas de batatas, era seguidamente espancado e apresentado como "a versão mais degradante do ser humano", causando repulsa em todos que encaravam aquele corpo humano 90% deformado. Sua vida muda quando um médico, Frederick Treves (Anthony Hopkins), o descobre e o leva para um hospital. Lá Merrick se liberta emocionalmente e intelectualmente, além de se mostrar uma pessoa sensível, conseguindo aos poucos recuperar sua dignidade**.
No filme em pauta, acompanhamos a história de um homem deformado que tem sua condição humana negada inclusive por ele próprio. O moço de 21 anos se reconhece como uma criatura inferior, indigna até mesmo para reivindicar sua integridade física e psíquica. A sua compreensão de si mesmo muda quando lhe é dada a oportunidade de receber tratamento médico num hospital, momento em que finalmente divide a sua existência com outras pessoas.
Porém, essa acolhida foi suficiente para fazer a sociedade dita moderna, imediatamente, vestir as regras da tradição. Não era possível que uma criatura considerada débil e monstruosa recebesse os mesmos cuidados e dividisse morada com outros humanos normais. Era tão perigosa tal acolhida, que a solução encontrada não foi outra senão a violência.
A Tradição cuidou em se impor e mostrar o seu poder, definindo quem manda e quem obedece, já que, as sociedades tradicionais estão organizadas segundo o princípio da hierarquia e partem da totalidade (sociedade) para a demarcação das partes (sujeitos). Para essas leis morais, o homem elefante, como era chamado, devia sujeição a qualquer criatura, até mesmo as outras que experimentavam a exclusão assim como ele. Por isso, a classe social mais rejeitada se sentiu no direito de violentá-lo, trancá-lo em gaiolas junto com "outros bichos".
A nossa sociedade foi construída a partir de generalizações comportamentais definidas por leis morais e religiosas. Mesmo com a valorização do indivíduo no mundo moderno, o choque dos valores sociais com essa individualização permanecem. Quanto mais o indivíduo é sensível, respondendo aos fatores externos na proporção de sua personalidade e lucidez, mais é sofrido viver as regras de uma sociedade considerada psicologicamente cruel e desumana e voltada para o horror e a violência contra o ser humano. Quem se choca com a estrutura social, quem se apresenta com um pouco de unicidade a mais do que é permitido é marginalizado***.
Para esses marginais sociais se afirmarem e garantirem seu espaço como seres também importantes e dotados de poder, sobram algumas alternativas: a violência, exteriorização do poder, contra quem é possível dominar, ou seja, aquele considerado hierarquicamente mais fraco; ou a loucura, para confrontar todo o resto do mundo com uma arbitrária imoralidade.
* www.scielo.br/pdf/ln/n61/a07n61.pdf - Artigo do Prof. Renato M. Perissinotto: HANNAH ARENDT, PODER E A CRÍTICA DA “TRADIÇÃO”.
** http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante
*** Vídeo do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg para o programa Saia Justa - http://jacobpinheirogoldberg.blogspot.com/ - Pode ser baixado na seção Links
No filme em pauta, acompanhamos a história de um homem deformado que tem sua condição humana negada inclusive por ele próprio. O moço de 21 anos se reconhece como uma criatura inferior, indigna até mesmo para reivindicar sua integridade física e psíquica. A sua compreensão de si mesmo muda quando lhe é dada a oportunidade de receber tratamento médico num hospital, momento em que finalmente divide a sua existência com outras pessoas.
Porém, essa acolhida foi suficiente para fazer a sociedade dita moderna, imediatamente, vestir as regras da tradição. Não era possível que uma criatura considerada débil e monstruosa recebesse os mesmos cuidados e dividisse morada com outros humanos normais. Era tão perigosa tal acolhida, que a solução encontrada não foi outra senão a violência.
A Tradição cuidou em se impor e mostrar o seu poder, definindo quem manda e quem obedece, já que, as sociedades tradicionais estão organizadas segundo o princípio da hierarquia e partem da totalidade (sociedade) para a demarcação das partes (sujeitos). Para essas leis morais, o homem elefante, como era chamado, devia sujeição a qualquer criatura, até mesmo as outras que experimentavam a exclusão assim como ele. Por isso, a classe social mais rejeitada se sentiu no direito de violentá-lo, trancá-lo em gaiolas junto com "outros bichos".
A nossa sociedade foi construída a partir de generalizações comportamentais definidas por leis morais e religiosas. Mesmo com a valorização do indivíduo no mundo moderno, o choque dos valores sociais com essa individualização permanecem. Quanto mais o indivíduo é sensível, respondendo aos fatores externos na proporção de sua personalidade e lucidez, mais é sofrido viver as regras de uma sociedade considerada psicologicamente cruel e desumana e voltada para o horror e a violência contra o ser humano. Quem se choca com a estrutura social, quem se apresenta com um pouco de unicidade a mais do que é permitido é marginalizado***.
Para esses marginais sociais se afirmarem e garantirem seu espaço como seres também importantes e dotados de poder, sobram algumas alternativas: a violência, exteriorização do poder, contra quem é possível dominar, ou seja, aquele considerado hierarquicamente mais fraco; ou a loucura, para confrontar todo o resto do mundo com uma arbitrária imoralidade.
* www.scielo.br/pdf/ln/n61/a07n61.pdf - Artigo do Prof. Renato M. Perissinotto: HANNAH ARENDT, PODER E A CRÍTICA DA “TRADIÇÃO”.
** http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Homem_Elefante
*** Vídeo do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg para o programa Saia Justa - http://jacobpinheirogoldberg.blogspot.com/ - Pode ser baixado na seção Links


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